UMA DIETA VEGETAL PODE AJUDAR A REDUZIR DESIGUALDADES
Com o crescimento contínuo da população mundial, dietas à base de vegetais ajudam a criar um mundo mais justo por meio de um sistema alimentar mais eficiente e equitativo.
1. As dietas à base de vegetais contribuem para a justiça ambiental
Aqueles que são marginalizados social, econômica, politicamente ou de outra forma são desproporcionalmente afetados pelas alterações climáticas e pela degradação ambiental, que é exacerbada pela pecuária.1 Por exemplo, as comunidades vulneráveis estão frequentemente localizadas mais próximas das principais fontes de poluição, como em torno de áreas industriais ou de fazendas. Produzindo uma quantidade impressionante de resíduos, as fazendas industriais poluem significativamente o ar, a água e o solo adjacentes e frequentemente colocam em risco a saúde das comunidades minoritárias.2
Ao tornar nosso sistema alimentar mais baseado em vegetais, podemos mitigar essas terríveis consequências. Os alimentos de origem animal são responsáveis por cerca de 20% das emissões globais de gases de efeito de estufa,3 enquanto a produção pecuária é responsável por cerca de 32% das emissões globais de metano, um gás muito mais potente que o CO2, decorrentes de atividades humanas.4 Os alimentos de origem vegetal, por outro lado, têm um impacto ambiental muito menor.5 Estima-se que a mudança para dietas mais baseadas em vegetais poderia reduzir as emissões agrícolas em países de alta renda em 61%.6 Tornar-se vegano, portanto, não só ajuda o planeta, mas também aqueles que mais sofrem com a sua destruição.
2. Dietas à base de vegetais reduzem o desmatamento
A pecuária não só contribui significativamente para as emissões de gases com efeito de estufa, como também é um importante motor do desmatamento, que muitas vezes tem um impacto negativo nas comunidades locais. De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), a expansão agrícola foi responsável por quase 90% do desmatamento global entre 2000 e 2018.7 Muito disso pode ser atribuído à pecuária, que utiliza cerca de 83% das terras agrícolas globais, uma área tão grande como a América do Norte e do Sul combinadas.8 Na verdade, quase 70% das terras desmatadas na Amazônia, a maior floresta tropical remanescente no mundo, são utilizadas como pasto para gado.9
Além dos enormes danos que o desmatamento causa à biodiversidade, também tem consequências terríveis para as comunidades locais, muitas vezes indígenas e quilombolas, e também agricultores familiares, que dependem das florestas para a sua subsistência, ou que sofrem com a má distribuição de terras. Para estas pessoas, a destruição das florestas e a sua subsequente deslocação forçada priva-as não só de alimentos e materiais vitais, mas também das suas terras, do seu património cultural e das suas tradições. Isso para não mencionar conflitos por terras que muitas vezes estão relacionados a violações sérias aos direitos humanos.
3. Dietas à base de plantas minimizam zoonoses e resistência a antibióticos
O desmatamento está também no centro de uma grande ameaça à saúde pública associada à pecuária industrializada: as doenças zoonóticas. Uma zoonose é uma doença infecciosa que foi transmitida de animais não humanos para humanos. Exemplos bem conhecidos de tais doenças são o HIV e a gripe suína, e uma grande quantidade de evidências sugere que o vírus COVID-19 também se originou em animais não humanos. Estima-se que cerca de 75% das doenças infecciosas emergentes e 60% das doenças infecciosas em humanos sejam zoonoses, causando cerca de 2,5 mil milhões de casos de doenças e 2,7 milhões de mortes todos os anos.10
As consequências devastadoras de tais surtos de doenças muitas vezes impactam de forma desproporcional as comunidades marginalizadas. Um estudo de 2020 mostrou que, no Reino Unido, quase todas as minorias étnicas corriam maior risco de morrer de COVID-19 do que a população britânica branca.11 Uma das razões para isto é que os grupos minoritários eram muito mais propensos a trabalhar na área da saúde e em setores de assistência social e já registaram uma maior prevalência de condições de saúde negativas. Descobertas semelhantes foram relatadas para outros países.12 No Brasil, a precarização do trabalho e das moradias fez com que muitas pessoas fossem impedidas de ficarem em casa durante a pandemia, ou de praticar o distanciamento social dentro de suas próprias casas.
A pecuária intensiva é um dos principais impulsionadores do risco zoonótico. Primeiro, a produção pecuária é uma das principais causas do desmatamento global. Isto reduz significativamente o habitat natural dos animais selvagens, conduzindo-os para áreas urbanas, onde o contato próximo com os seres humanos aumenta o risco de transmissão de doenças entre espécies. Em segundo lugar, a pecuária intensiva constitui um terreno fértil natural para o aparecimento de doenças infecciosas: as densidades populacionais são frequentemente elevadas, as condições de produção são pouco higiênicas e o sistema imunitário dos animais está gravemente enfraquecido devido ao estresse e às lesões.13 Por último, esta situação é agravada pelo aumento das taxas da resistência antimicrobiana, da qual a pecuária é um dos principais impulsionadores. Mais de 70% dos antibióticos globais são utilizados em animais em fazendas industriais.14
4. Veganos não contribuem para as más condições de trabalho em frigoríficos e fazendas
Por último, as dietas à base de vegetais também evitam os efeitos secundários nocivos da indústria frigorífica. O abate e processamento de animais não humanos é uma consequência inevitável do consumo de produtos à base de carne. Além do sofrimento dos animais não humanos, este processo altamente industrializado também tem um grande impacto sobre os próprios trabalhadores.
Na verdade, o processamento de carne não envolve apenas trabalho físico árduo e repetitivo que pode causar lesões graves, mas também impõe graves tensões psicológicas. Cada vez mais evidências sugerem uma maior prevalência de problemas de saúde mental entre os trabalhadores dos matadouros. Uma revisão sistemática da literatura de 2021 encontrou evidências significativas de taxas mais elevadas de depressão, ansiedade e psicose, com trabalhadores relatando altos níveis de estresse e sintomas de trauma.15
Além disso, em muitos países, os trabalhadores dos frigoríficos têm maior probabilidade de pertencer a grupos socioeconômicos e raciais vulneráveis, o que os torna ainda mais sujeitos aos perigos das doenças zoonóticas descritas acima. Primeiro, pelo contato direto com sangue e fluidos dos animais; mas, também, os frigoríficos que continuaram a funcionar durante a pandemia da COVID-19 transformaram-se frequentemente em focos infecciosos, colocando os trabalhadores e as comunidades em risco.16
As dietas baseadas em vegetais estão longe de ser ética e ambientalmente perfeitas e precisamos de nos lembrar que o cultivo de frutas, legumes, nozes e leguminosas também pode envolver práticas seriamente antiéticas. No entanto, ao reduzir o nosso consumo de produtos de origem animal, podemos reduzir e evitar muitas das injustiças sociais que são uma parte essencial da pecuária industrializada. No final das contas, as dietas baseadas em vegetais representam uma oportunidade poderosa para construir um mundo que seja mais saudável, justo e mais sustentável.
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Fontes
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