Ambiente e Sustentabilidade

A alimentação rica em vegetais é melhor para o ambiente

O aquecimento global, juntamente com o uso de terra e água, o desperdício de recursos, a perda de biodiversidade e o aumento de zoonoses, são apenas alguns dos problemas globais que enfrentamos atualmente. Estes problemas são agravados por uma população mundial crescente e pelo consequente aumento da procura por produtos de origem animal. É urgentemente necessária uma mudança alimentar para ajudar a resolver estes problemas.

O nosso planeta tem uma certa capacidade em termos do quanto pode suportar antes de um sistema vital, como o clima planetário, atingir um ponto crítico, por vezes denominado ponto de rutura. Atingir, ou mesmo ultrapassar, esses pontos pode provocar alterações irreversíveis e significativas em alguns dos nossos sistemas terrestres, conduzindo ao aquecimento global ou à perda de biodiversidade, entre outros impactos negativos¹². O sistema alimentar global, juntamente com os atuais padrões de consumo, desempenha um papel fundamental no ultrapassar de alguns destes limites planetários. Alterar o que comemos pode ser benéfico tanto para a saúde humana como para a do planeta.

Crise climática

A atual crise climática representa uma enorme ameaça à segurança alimentar, à disponibilidade de água e à biodiversidade a nível mundial, bem como é uma das principais causas de catástrofes ambientais. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), o nosso sistema alimentar atual é responsável por até um terço das emissões globais de gases com efeito de estufa³. A agropecuária representa cerca de 20% dessas emissões⁴. As metas estabelecidas no Acordo de Paris de 2015 – que visam limitar o aquecimento global a 1,5°C para evitar os piores impactos – não serão alcançáveis se os comportamentos alimentares atuais se mantiverem, mesmo que as emissões fósseis cessem completamente⁵.

A investigação científica, juntamente com organizações como o IPCC, concorda que uma transição para dietas mais baseadas em vegetais pode reduzir significativamente as emissões alimentares de gases com efeito de estufa⁶. A nível individual, adotar uma dieta de base vegetal pode reduzir as emissões pessoais relacionadas com a alimentação em até 50%⁷⁸⁹¹⁰. A nível global, se toda a população adotasse uma dieta de base vegetal, as emissões alimentares poderiam ser reduzidas em até 70% até 2050, em comparação com um cenário em que os hábitos alimentares atuais se mantêm¹¹.

Uso da água

O mundo enfrenta uma crise hídrica. A escassez de água já afeta mais de 40% da população mundial¹². Globalmente, a agricultura é o maior consumidor de água doce, utilizando 70% da água disponível para irrigação e criação de animais, tanto em terra como em aquacultura¹³. O cultivo de rações representa 20% do consumo mundial de água doce¹⁴.

Ao falar do uso da água, referimo-nos frequentemente à “pegada hídrica”, que indica quanta água é necessária para produzir determinados bens, como os alimentos. Esta pegada é composta por água doce (água azul) usada diretamente na produção e proveniente de águas subterrâneas e superficiais, e por água da precipitação (água verde), armazenada no solo e potencialmente disponível para as plantas. A quantidade de água varia consoante o produto e a região. Por exemplo, a produção de um hambúrguer de vaca de 150 gramas requer 2.350 litros de água, enquanto um hambúrguer de soja comparável necessita apenas de cerca de 158 litros¹⁵.

A nível individual, pode-se reduzir a pegada hídrica entre 25% e 55% ao adotar uma dieta mais vegetal¹⁶¹⁷, o que pode representar uma poupança de 1.200 a 2.000 litros de água por dia¹⁸¹⁹. Em termos de água doce, a redução também pode ser significativa²⁰, embora dependa do que é consumido e onde é produzido²¹.

Uso do solo

Cerca de metade da área habitável do planeta é usada para agricultura²². Destes terrenos, 80% são destinados à produção de alimentos de origem animal (contribuindo também para até 60% das emissões alimentares), apesar de estes produtos fornecerem apenas cerca de 18% das calorias consumidas²³. A maior parte deste terreno é utilizada como pastagem, e o restante – vastas áreas de terras aráveis – serve para o cultivo de rações. Segundo a FAO, cerca de um terço das terras aráveis do mundo é usado para culturas forrageiras²⁴. Em países com alto consumo de proteína animal, esta percentagem é ainda maior. Na Alemanha, por exemplo, mais de 50% das terras cultivadas são usadas para a produção de rações, e o país “importa” o equivalente ao dobro da área usada internamente. No total, dois terços da pegada de uso do solo da Alemanha são atribuídos à produção pecuária²⁵.

Desperdício de recursos

É um facto triste que um terço de todos os alimentos sejam perdidos na cadeia de abastecimento ou desperdiçados pelos consumidores ou retalhistas²⁶. Para além disso, uma enorme quantidade de culturas é destinada a alimentar animais em vez de pessoas – cerca de um terço dos cereais e dois terços da soja, milho e cevada são consumidos por animais²⁷. Nem todos os alimentos para os animais de pecuária são apropriados ao consumo humano (como a erva das pastagens), mas sobretudo no ocidente, grande parte do que é utilizado compete diretamente com a alimentação humana.

As maiores perdas de produção alimentar estão associadas à criação de animais para consumo²⁸²⁹³⁰. Em termos biológicos, com cada etapa na cadeia alimentar, perde-se muita energia usada em metabolismo e movimento. A “eficiência de conversão alimentar” mede quantos quilos de ração são necessários para produzir um quilo de carne, leite ou ovos. Um estudo de Shepon et al. (2016) concluiu que, em média, apenas 8% da proteína vegetal é convertida em proteína animal – ou seja, são necessários cerca de 12 quilos de proteína vegetal para produzir 1 quilo de proteína animal³¹. Quando comparamos produtos de origem animal com substitutos vegetais nutricionalmente equivalentes, entre 40% e 96% da comida é desperdiçada³².

A pecuária industrial consome grandes quantidades de proteína que poderiam ser ingeridas diretamente por humanos³³. Nos EUA, substituir carne por alternativas vegetais poderia reduzir o uso de terras agrícolas e fertilizantes azotados em 35–50%, e as emissões de gases com efeito de estufa de forma semelhante³⁴. Um outro estudo demonstrou que dietas mais vegetais poderiam alimentar o dobro da população dos EUA³⁵. Globalmente, poderíamos alimentar cerca de 10 mil milhões de pessoas com menos proteína animal nas nossas dietas³⁶³⁷³⁸.

Perda de biodiversidade

A biodiversidade é essencial ao funcionamento dos ecossistemas e necessária para solos saudáveis, regulação da água, armazenamento de carbono, produção alimentar, polinização e vida selvagem saudável³⁹. No entanto, grande parte da nossa alimentação provém de poucas espécies, e os métodos de produção exercem pressão adicional sobre a biodiversidade.

Entrámos numa era de sexta extinção em massa⁴⁰⁴¹. Cerca de 25% de todas as espécies enfrentam atualmente o risco de extinção, muitas nas próximas décadas⁴². A agricultura é uma das principais causas deste declínio, pois estamos a transformar o planeta tão rapidamente que impede a adaptação de espécies selvagens.

As florestas albergam mais de 80% das plantas e animais terrestres⁴³, mas quase 70% das áreas desflorestadas na Amazónia são usadas como pasto para gado⁴⁴. A redução do consumo de carne poderia reduzir a desflorestação em até 55%⁴⁵.

Um estudo sobre 20.000 vertebrados terrestres estima que 88% destas espécies perderão o seu habitat até 2050 devido à expansão agrícola, se os padrões alimentares e práticas agrícolas atuais se mantiverem. Para evitar estas perdas, é fundamental reduzir o consumo de carne e produtos de origem animal, reduzir o desperdício alimentar, aumentar de forma sustentável os rendimentos agrícolas e implementar uma gestão internacional do uso do solo⁴⁶.

Doenças infecciosas e resistência a antibióticos

As zoonoses são doenças de origem animal que passaram para os humanos. Há evidências crescentes de que o aumento de eventos zoonóticos está diretamente relacionado com a intensificação das interações humanas com os animais, especialmente na cadeia alimentar. O nosso apetite por carne, ovos e laticínios aproxima-nos cada vez mais dos animais, sejam eles domésticos ou selvagens, confinando-os em espaços reduzidos e invadindo os seus habitats. Esta proximidade, aliada à destruição ambiental, aumenta a probabilidade de os vírus ultrapassarem a barreira entre espécies, originando novas doenças zoonóticas.

O que podes fazer

Ao reduzires o consumo de carne, laticínios, peixe e ovos e ao adotar uma dieta mais vegetal, podes contribuir diretamente para a resolução de muitos dos problemas globais mencionados acima. Através dos hábitos alimentares, poder-se-iam alimentar 10 mil milhões de pessoas – sem aumentar o peso sobre o ambiente e a saúde do planeta⁴⁷.

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