Nutrição e Saúde

Análise das novas recomendações de alimentação em creches da DGS

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A Direção-Geral da Saúde publicou em setembro de 2026 um manual sobre a alimentação em creches (1), procurando melhorar a oferta alimentar nestas instituições. Tendo em conta a importância da alimentação na infância e o tempo que as crianças passam na creche, é fundamental garantir que as refeições fornecidas são adequadas e contribuem para um crescimento e desenvolvimento saudáveis.

O documento aborda a amamentação, as ementas, os alimentos recomendados e desaconselhados, restrições alimentares e informações relevantes sobre alergias, engasgamento, o ambiente das refeições e segurança alimentar.

Neste artigo, partilho a minha análise (nutricionista Sandra Gomes Silva, 2340N) do documento, tendo em conta a evidência científica disponível sobre o tema.

Uma visão abrangente e o respeito pela autorregulação

Um dos aspetos mais positivos deste documento é, na minha opinião, a abordagem da alimentação de uma forma mais abrangente, que vai além dos alimentos incluídos no prato e da satisfação das necessidades nutricionais. Uma das questões mais relevantes na alimentação infantil, também destacada neste manual, é o respeito pela autorregulação alimentar. O documento recomenda práticas de alimentação responsiva, em que são respeitados os sinais de fome e saciedade das crianças, bem como a sua autonomia, em linha com as recomendações da Organização Mundial da Saúde(2). O ambiente das refeições também merece destaque, sendo as refeições encaradas como oportunidades de aprendizagem, socialização e desenvolvimento da autonomia.

Em linha com esta abordagem, o manual apresenta capitações para os vários alimentos, mas sublinha que estas são quantidades de referência para o planeamento e a oferta alimentar, não significando que todas as crianças devam consumir a totalidade da porção servida.

Promoção e apoio à amamentação

A amamentação merece destaque logo no início do documento. É referido que as creches desempenham um papel fundamental na promoção, proteção e apoio ao aleitamento materno, devendo, sempre que possível, assegurar as condições necessárias à sua continuidade após o ingresso da criança na creche. São também dadas indicações sobre o transporte, o armazenamento e o aquecimento corretos do leite materno, bem como sobre a preparação segura da fórmula infantil.

Alimentos recomendados e a evitar

Outro aspeto relevante, e provavelmente aquele que teve mais destaque na divulgação do manual, foi a indicação dos alimentos a ser oferecidos e daqueles que devem ser evitados. É recomendada a oferta de alimentos pouco processados, sem adição de açúcar ou sal e sem excesso de gordura, como fruta, hortícolas, leguminosas, tubérculos, cereais variados, carne, pescado, ovo, azeite e frutos gordos. São também recomendadas papas não lácteas sem adição de farinhas hidrolisadas, açúcar ou maltodextrinas, bem como iogurtes sem aromas, açúcares, adoçantes, fruta ou preparados de fruta adicionados. O documento refere ainda que os produtos específicos para bebés, como os boiões de fruta, geralmente não são necessários e que, em muitos casos, não apresentam vantagens nutricionais relevantes.
Por outro lado, é apresentada uma extensa lista de alimentos que não devem ser disponibilizados nas creches, nomeadamente bolachas (incluindo bolacha Maria), gelatina, bolos, charcutaria (incluindo fiambre), molhos, chocolates, leites de crescimento, entre outros produtos com elevado teor de sal, açúcares e/ou gordura, com adição de adoçantes, alimentos ultraprocessados, alimentos que pela sua forma, dimensão ou consistência apresentem risco acrescido de engasgamento e asfixia.

O manual reforça a importância da variedade de sabores e texturas, apresentando várias sugestões de refeições principais e lanches. Destaca também a importância da progressão das texturas, desde os alimentos pastosos até aos alimentos em pedaços, e da oferta de papas progressivamente menos líquidas.

Diversidade de regimes alimentares e planeamento de ementas

No que diz respeito à alimentação vegetariana, o manual prevê a oferta deste tipo de refeições em contexto de creche e refere que as opções alimentares vegetarianas devem ser respeitadas e acomodadas pelas instituições, desde que devidamente planeadas e capazes de assegurar a adequação nutricional da alimentação da criança. É recomendada a inclusão de leguminosas ou tofu nas refeições principais, bem como a oferta de bebidas vegetais e alternativas vegetais ao iogurte à base de soja, sem adição de açúcar ou aromas e fortificadas em cálcio e vitamina D.

Pontos para reflexão técnica

Um excerto do documento que poderá ser mal interpretado e que, na minha opinião, deveria ser revisto é o seguinte:

“Durante a diversificação alimentar de cada criança, a introdução de novos alimentos deve ser realizada de forma faseada, não sendo recomendada a introdução de mais do que um alimento novo em simultâneo, de forma a facilitar a identificação de eventuais alergias alimentares”.

No entanto, esta recomendação não está alinhada com as orientações internacionais sobre a diversificação alimentar. A ESPGHAN (Sociedade Europeia de Gastroenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica) recomenda a oferta de uma dieta variada, com diversidade de sabores e texturas, mas não estabelece uma regra geral de introdução isolada de cada alimento(3). Além disso, recomenda que os alimentos potencialmente alergénicos possam ser introduzidos desde o início da alimentação complementar. Assim, a introdução faseada de novos alimentos, quando interpretada de forma demasiado restritiva, pode tornar o processo desnecessariamente lento e dificultar a diversificação alimentar. Desta forma, com exceção dos alimentos de maior risco alérgico, torna-se desnecessária uma introdução faseada dos alimentos. 

Uma outra questão relevante, que não constitui necessariamente uma crítica, mas que poderá dificultar a aplicação prática das recomendações, diz respeito às papas infantis. Existem poucas opções no mercado que cumpram todos os critérios recomendados, o que poderá dificultar a aplicação prática destas recomendações. Ainda assim, é muito relevante a definição de critérios sobre as papas a oferecer, considerando que atualmente é muito frequente a oferta de papas açucaradas. Na impossibilidade de cumprir todos os critérios, recomenda-se que a oferta de papas sem açúcar/maltodextrinas adicionados seja priorizada.

Conclusão

Em suma, este manual traz recomendações importantes e vai, com certeza, ajudar a melhorar a oferta alimentar nas creches. Apesar deste documento não ser de implementação obrigatória, vai ajudar a sustentar as mudanças necessárias, quer por iniciativa das instituições, quer das famílias. 

A evidência disponível sobre a oferta de alimentos ricos em açúcar e o fornecimento de refeições nutricionalmente desequilibradas nestas instituições reforça a necessidade de orientações claras, baseadas em evidência científica e passíveis de serem aplicadas na prática. A nutrição assume um papel fundamental nesta fase da vida e garantir uma alimentação nutritiva, num ambiente saudável, é fundamental para o crescimento e desenvolvimento adequados das crianças. 

Autoria: Sandra Gomes Silva, Nutricionista (2340N)

Referências bibliográficas

  1. Direção-Geral da Saúde. ORIENTAÇÕES PARA A ALIMENTAÇÃO EM CRECHES E OUTRAS RESPOSTAS SOCIAIS DIRIGIDAS A CRIANÇAS ATÉ AOS 3 ANOS Lisboa: Direção-Geral da Saúde, (2026).
  2. https://www.who.int/publications/i/item/9789240081864
  3. Complementary Feeding: A Position Paper by the European Society for Paediatric Gastroenterology, Hepatology, and Nutrition (ESPGHAN) Committee on Nutrition. J Pediatr Gastroenterol Nutr. 2017;64(1):119–132. doi: [10.1097/MPG.0000000000001454

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