Nutrição e Saúde

A Alimentação impacta a Saúde do Coração

Em Portugal, o grupo de doenças que mais causa mortalidade são as doenças cérebro e cardiovasculares (doenças do aparelho circulatório). De forma específica, o acidente vascular cerebral (AVC) sobressai como a principal causa isolada de mortalidade no país.1

A doença cardíaca é frequentemente vista como algo que surge inesperadamente numa fase mais avançada da vida. Mas, na verdade, desenvolve-se lentamente ao longo de décadas – moldada por vários fatores, como genética, estilo de vida e hábitos diários. O tabagismo, a inatividade física e a alimentação contribuem para o risco ao longo do tempo. No centro de tudo está a aterosclerose: a acumulação gradual de depósitos de gordura que endurecem e estreitam as artérias, acabando por restringir o fluxo sanguíneo.

Isto não acontece da noite para o dia – e não se deve apenas à genética. Com o tempo, este processo pode levar a ataques cardíacos, acidentes vasculares cerebrais (AVC) e outras condições fatais.2 A boa notícia? Podemos gerir alguns dos riscos, e a alimentação é um deles.

O que é a aterosclerose e por que razão é importante?

A aterosclerose ocorre quando o colesterol e as células imunitárias se começam a acumular no interior das paredes das artérias. Estas estrias gordurosas acabam por se transformar em placa endurecida, que estreita as artérias e pode bloquear totalmente o fluxo sanguíneo.3 É uma doença progressiva – e a causa subjacente à maioria das doenças cardiovasculares, desde a angina de peito aos AVC.

Como uma alimentação rica em vegetais reduz o risco

As pessoas que seguem uma alimentação saudável rica em vegetais têm, geralmente, um risco menor de desenvolver aterosclerose e doenças cardíacas.4 Também tendem a apresentar níveis mais baixos de colesterol total e de colesterol LDL – o tipo de colesterol que obstrui as artérias. Isto deve-se, em parte, ao facto de as dietas ricas em vegetais serem baixas em gorduras saturadas, sendo que os alimentos vegetais não contêm colesterol alimentar.5

Acresce que uma alimentação rica em vegetais bem planeada inclui gorduras insaturadas, fibras e fitonutrientes provenientes de alimentos como fruta, legumes, leguminosas, frutos de casca rija e cereais integrais. Juntos, estes elementos apoiam a saúde do coração e ajudam a reduzir a inflamação.6

Os ácidos gordos ómega-3, por exemplo, podem ajudar a reduzir o risco de doenças cardiovasculares. Os óleos de linhaça, colza e noz são fontes de ácido alfa-lipoico (ALA) que o nosso corpo pode converter em ácido eicosapentaenoico (EPA). No entanto, as microalgas e as algas são as únicas fontes vegetais diretas de ácido docosahexaenoico (DHA) e EPA, os dois ómega-3 de cadeia longa que apoiam a saúde do coração e do cérebro.

O papel da alimentação na saúde do coração

Não fumar e praticar atividade física regular são fundamentais para uma boa saúde do coração. Mas, para além desses aspetos críticos, também a alimentação torna-se um fator-chave que se pode controlar ativamente.

Estudos demonstram que as pessoas que consomem mais fruta, legumes, leguminosas e cereais integrais não só têm um risco menor de doença cardíaca, como também vivem mais tempo.7 8 Inversamente, a carne vermelha e processada tem demonstrado aumentar significativamente o risco. Num estudo realizado nos EUA com mais de 500 mil pessoas, os homens que consumiam mais carne vermelha tinham um risco 27% superior de morrer de doença cardiovascular; nas mulheres, o risco subia para os 50%.9 O consumo de carnes vermelhas processadas parece aumentar ainda mais esse risco.10

Existem evidências crescentes de que uma alimentação saudável rica em vegetais pode não só prevenir a doença cardíaca, como também ajudar a revertê-la em alguns casos.11 Isso traduz-se em melhorias do estado de saúde em pessoas com tensão arterial elevada, diabetes tipo 2 ou obesidade, todos eles fatores de risco para doenças cardiovasculares.12 13

Escolhas simples com grandes benefícios

Ter uma alimentação rica em vegetais é uma das ferramentas mais simples e poderosas para proteger a saúde do coração.

Alimentos como aveia, feijão, hortícolas, frutos de casca rija e sementes são pilares de uma dieta nutritiva. Ao integrá-los no quotidiano, aliados à prática de exercício físico e à ausência de tabagismo, contribui-se para um estilo de vida verdadeiramente protetor do coração.

Adaptado de artigo de Simon Middleton, Senior Writer da ProVeg International

Referências:

  1. Pereira, S., Costa, I. S., Veiga, R. S., Mateus, H., & Mesquita, I. B. (2024). Principais causas de mortalidade em Portugal: o interesse da população num estudo longitudinal. Rev Port Med Geral Fam, 40(4), 347-352. https://doi.org/10.32385/rpmgf.v40i4.13756
  2. U.S. National Library of Medicine (2020): Developmental process of atherosclerosis. Online at: https://medlineplus.gov/ency/imagepages/18020.htm [01.11.2021]
  3. National Center for Chronic Disease Prevention and Health Promotion (2021): Heart Disease Facts. Available at https://www.cdc.gov/heartdisease/facts.htm [26.10.2021]
  4. Fenglei Wang M.S. et al. (2015): Effects of Vegetarian Diets on Blood Lipids: A Systematic Review and Meta-Analysis of Randomized Controlled Trials. doi: 10.1161/JAHA.115.002408 
  5. Melina, V., C. Winston & S. Levin (2016): Position of the Academy of Nutrition and Dietetics: Vegetarian Diets. Journal of the Academy of Nutrition and Dietetics 116, no. 12 (December 2016): pp. 1970–80. 
  6. National Institutes of Health (2021): Omega-3 Fatty Acids. Fact Sheet for Health Professionals. Verfügbar unter: https://ods.od.nih.gov/factsheets/Omega3FattyAcids-HealthProfessional/ [16.08.2021] 
  7. Matsumoto S. et al. (2019): Association between vegetarian diets and cardiovascular risk factors in non-Hispanic white participants of the Adventist Health Study-2. Journal of nutritional science vol. 8 e6. 21 Feb. 2019, doi:10.1017/jns.2019.1 
  8. WHO (2014): Increasing fruit and vegetable consumption to reduce the risk of noncommunicable diseases. Verfügbar unter: https://www.who.int/elena/titles/bbc/fruit_vegetables_ncds/en/ [16.08.2021] 
  9. Sinha R, Cross AJ, Graubard BI, Leitzmann MF, Schatzkin A (2009): Meat intake and mortality: a prospective study of over half a million people. Arch Intern Med 169 (6), 562–71 
  10. Papier K. et al (2021): Meat consumption and risk of ischemic heart disease: A systematic review and meta-analysis. https://doi.org/10.1080/10408398.2021.1949575 
  11. Lau L.H et al (2018): Prevalence of diabetes and its effects on stroke outcomes: A meta-analysis and literature review. J Diabetes Investig 2019; 10: 780–792. doi: 10.1111/jdi.12932 
  12. Powell-Wiley T.M. et al. (2021): Obesity and Cardiovascular Disease: A Scientific Statement From the American Heart Association. https://doi.org/10.1161/CIR.0000000000000973 
  13. Springer Medizin (2019): Bauchfett ist auch bei normalem BMI riskant. MMW – Fortschritte der Medizin 161, 3 (2019). https://doi.org/10.1007/s15006-019-0677-3 

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