Em 2026, o Dia da Sobrecarga da Terra para Portugal (Country Overshoot Day) está previsto para 7 de maio, segundo dados da Global Footprint Network.1 Esta data indica que, se toda a humanidade consumisse recursos ao mesmo ritmo que Portugal, seriam necessários os recursos de mais do que um planeta Terra para satisfazer as nossas necessidades, esgotando a quota anual logo no início do quinto mês.
Conceito
O Dia da Sobrecarga de um país marca o dia em que o orçamento anual de biocapacidade do planeta se esgotaria se todas as pessoas na Terra consumissem tanto quanto os residentes desse mesmo país.
Ou seja, o momento em que a população de um país passa a precisar de mais recursos do que os seus ecossistemas locais podem fornecer durante o ano.
As datas do Dia da Sobrecarga são publicadas anualmente. O cálculo é feito dividindo a biocapacidade global por pessoa pela pegada ecológica do país e multiplicando esse resultado pelos dias do ano.
Caso específico de Portugal
Em Portugal, o Dia da Sobrecarga em 2026 ocorre a 7 de maio. Portugal partilha exatamente a mesma data que o Chile e a Eslováquia.
Se toda a humanidade consumisse recursos ao mesmo ritmo que os habitantes de Portugal, a situação global seria a seguinte:
- Orçamento esgotado em 126 dias: Os recursos regenerativos do planeta para todo o ano acabariam logo após os primeiros 126 dias de 2026.
- Planetas necessários: Seriam precisos 2,9 planetas Terra para sustentar esse nível de consumo.
Diferenças entre os Países
As análises mostram grandes contrastes nas taxas de consumo global:
- Países de altíssimo consumo: Estes “exigem muitos planetas” para sustentar o seu padrão de vida e esgotam o orçamento global nos primeiros meses do ano. Por exemplo, se o mundo vivesse como o Catar, o Dia da Sobrecarga seria a 4 de fevereiro (exigindo 10 planetas Terra). Em Luxemburgo, seria a 17 de fevereiro (7,7 Terras), e nos Estados Unidos seria a 14 de março (5,1 Terras).
- Países de baixo consumo: Países com um nível de consumo menor têm os seus dias projetados para o final do ano. É o caso de Honduras (27 de novembro) e Camboja (25 de novembro), que exigiriam apenas 1,1 planetas Terra.
- Alguns países nem sequer possuem um Dia da Sobrecarga porque a sua pegada ecológica por pessoa é menor do que a biocapacidade global disponível de 1,48 gha. Se toda a humanidade consumisse como os habitantes da Índia, Bangladesh, Quénia ou Filipinas, por exemplo, o planeta não excederia a sua capacidade regenerativa, precisando-se apenas do planeta atual.
- Países excluídos por falta de qualidade de dados: As listas também excluem certos países (como Países Baixos, Noruega, Cuba, entre outros) devido à baixa qualidade ou inconsistência nos dados relatados à ONU. Muitos desses países possuem economias com fluxos comerciais muito grandes em relação ao seu tamanho, introduzindo ruídos significativos nos algoritmos de cálculo. Nesses casos, os resultados são omitidos até que as discrepâncias possam ser resolvidas.
O Papel da Alimentação
A alimentação está diretamente ligada ao Dia da Sobrecarga porque a produção de alimentos é uma das principais formas pelas quais a humanidade consome a biocapacidade (os recursos naturais regenerativos) do planeta.
Os números ajudam a perceber a escala do problema. O sistema agrícola, essencial para a produção alimentar que todos nós precisamos, utiliza mais de 40% das terras habitáveis do planeta e é responsável por mais de dois terços da captação de água doce. Ao mesmo tempo, contribui de forma significativa para fenómenos como desflorestação, acidificação dos solos e degradação de ecossistemas aquáticos.2 3
Em termos de emissões, o sistema alimentar global é responsável por cerca de um terço das emissões de gases com efeito de estufa e, segundo o IPCC, mesmo que os combustíveis fósseis fossem eliminados, as emissões associadas à alimentação, por si só, seriam suficientes para comprometer a meta do Acordo de Paris de manter o aumento da temperatura global abaixo de 1,5°C.4
Para que haja uma ação pública e privada eficaz, precisamos de compreender os impactos ambientais ao longo das cadeias de abastecimento alimentar. De acordo com um relatório de 2022 da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) 5:
- A maior parte dos impactos ambientais dos alimentos ocorre através de alterações no uso do solo ou na produção agrícola.
- Os produtos de origem vegetal têm, de uma forma geral, uma menor pegada ambiental do que os alimentos de origem animal, e os produtos provenientes de ruminantes têm tipicamente uma maior pegada do que outros produtos de origem animal.
- 16% de todos os alimentos a nível mundial são desperdiçados pelas famílias ou no setor da restauração (além do desperdício no retalho e das perdas nas cadeias de abastecimento), o que se traduz em elevado impacto ambiental.
- Existe uma grande heterogeneidade entre os produtores: 25% da produção global é frequentemente responsável por mais de metade do total dos impactos ambientais.
- Uma parte significativa dos impactos ambientais está “incorporada” no comércio internacional – contudo, esta percentagem é consideravelmente inferior a 50%.
De acordo com uma meta-análise abrangente 2, se a ingestão de proteína fosse mais diversificada, com uma maior proporção proveniente de fontes vegetais, os benefícios seriam os seguintes:
- Redução nas emissões de GEE: Redução de emissões de gases de efeito estufa da alimentação em até 49%.
- Menor uso de solo: O uso global do solo para a produção de alimentos poderia diminuir em até 76%.
- Menor uso de água: As captações de água doce (ajustado pela escassez) seriam reduzidas em até 19%.
Em relação ao desperdício alimentar, este gera 8% a 10% das emissões globais antropogénicas de gases com efeito de estufa, sendo que reduzir o desperdício alimentar pela metade poderia diminuir a necessidade global de terras aráveis em cerca de 14%.6
Detalhe da Pegada Alimentar em Portugal
Em Portugal, o cenário é revelador e manter a alimentação no centro do planeamento climático é necessário. Segundo o estudo publicado pela revista Science of the Total Environment, em 2020, a alimentação representa entre 27% e 33% da pegada ecológica das famílias, sendo o maior contributo individual, acima dos transportes e da energia. Ao mesmo tempo, estima-se que o país desperdiça cerca de um milhão de toneladas de alimentos por ano, o equivalente a aproximadamente 17% de toda a produção alimentar nacional.7
De acordo com este e outros estudos, conclui-se que as políticas públicas locais e nacionais têm de ser reforçadas e focadas em eixos de ação: um maior consumo de fontes vegetais de proteína (o que pode reduzir o défice ecológico nacional em cerca de 19%), o combate ao desperdício alimentar e o fortalecimento da produção sustentável e de maior proximidade, encurtando as cadeias de abastecimento e reconectando as cidades às áreas rurais.
Referências
- Global Footprint Network. (2026). Country Overshoot Days 2026. Earth Overshoot Day. https://overshootday.org/newsroom/country-overshoot-days
- Poore, J., & Nemecek, T. (2018). Reducing food’s environmental impacts through producers and consumers. Science, 360(6392), 987-992. https://doi.org/10.1126/science.aaq0216
- Pendrill, F., Gardner, T. A., Meyfroidt, P., Persson, U. M., Adams, J., Azevedo, T., Bastos Lima, M. G., Baumann, M., Curtis, P. G., De Sy, V., Garrett, R., Godar, J., Goldman, E. D., Hansen, M. C., Heilmayr, R., Herold, M., Kuemmerle, T., Lathuillière, M. J., Ribeiro, V., Tyukavina, A., … West, C. (2022). Disentangling the numbers behind agriculture-driven tropical deforestation. Science (New York, N.Y.), 377(6611), eabm9267. https://doi.org/10.1126/science.abm9267
- Intergovernmental Panel on Climate Change. (2022). Climate Change 2022: Mitigation of Climate Change. Contribution of Working Group III to the Sixth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change (P. R. Shukla, J. Skea, R. Slade, A. Al Khourdajie, R. van Diemen, D. McCollum, M. Pathak, S. Some, P. Vyas, R. Fradera, M. Belkacemi, A. Hasija, G. Lisboa, S. Luz, & J. Malley, Eds.). Cambridge University Press. https://doi.org/10.1017/9781009157926
- Deconinck, K., & Toyama, L. (2022). Environmental impacts along food supply chains: Methods, findings, and evidence gaps (OECD Food, Agriculture and Fisheries Papers, No. 185). OECD Publishing.
- Mbow, C., C. Rosenzweig, L.G. Barioni, T.G. Benton, M. Herrero, M. Krishnapillai, E. Liwenga, P. Pradhan, M.G. Rivera-Ferre, T. Sapkota, F.N. Tubiello, Y. Xu, 2019: Food Security. In: Climate Change and Land: an IPCC special report on climate change, desertification, land degradation, sustainable land management, food security, and greenhouse gas fluxes in terrestrial ecosystems [P.R. Shukla, J. Skea, E. Calvo Buendia, V. Masson-Delmotte, H.-O. Pörtner, D.C. Roberts, P. Zhai, R. Slade, S. Connors, R. van Diemen, M. Ferrat, E. Haughey, S. Luz, S. Neogi, M. Pathak, J. Petzold, J. Portugal Pereira, P. Vyas, E. Huntley, K. Kissick, M. Belkacemi, J. Malley, (eds.)]. https://doi.org/10.1017/9781009157988.007
- Galli, A., Pires, S. M., Iha, K., Alves, A. A., Lin, D., Mancini, M. S., & Teles, F. (2020). Sustainable food transition in Portugal: Assessing the Footprint of dietary choices and gaps in national and local food policies. Science of the Total Environment, 749, 141307. https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2020.141307






