Ambiente e Sustentabilidade

Inovação alimentar – Entrevista à equipa do Tremo: “Queríamos criar algo que permitisse valorizar novamente o tremoço”

Inovação Alimentar e Valorização do Tremoço Nacional

A ProVeg Portugal foi à Universidade Católica Portuguesa (UCP), no Porto, para conhecer a equipa criadora do Tremo, um pastel salgado inovador à base de tremoço, para perceber como a inovação universitária pode redefinir o uso de ingredientes tradicionais portugueses na alimentação. A equipa multidisciplinar é formada por estudantes de três instituições diferentes: Rita Ventura, Bruno Marques, Diogo Pereira e Beatriz Prates (Mestrado em Engenharia Alimentar na UCP); Sofia Fang (Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto); e Leandra Neves (Marketing no ISCAP).

Nesta entrevista, os jovens empreendedores revelam como transformaram o tradicional petisco num produto premiado e sustentável, abordando os desafios técnicos do desenvolvimento e a importância de dinamizar o cultivo nacional de tremoço para impulsionar a agricultura portuguesa. No final deste artigo podem encontrar a entrevista completa em audio.

Três pessoas estão sentadas dentro de casa, perto de uma janela. A pessoa no centro, que trabalha com agricultura regenerativa, segura um pequeno aparelho preto e sorri, enquanto as outras duas olham para a câmera com expressões neutras.

O Tremo foi desenvolvido no contexto da disciplina de “Desenvolvimento de Novos Produtos e Processos”, lecionada pelas professoras Conceição OG e Margarida Neves, onde fomos desafiados a criar um produto inovador e sustentável para concorrer ao prémio Ecotrophelia, promovido pela Portugal Foods. Desde o início que queríamos apostar numa leguminosa devido às suas vantagens ambientais, nomeadamente a capacidade de fixar azoto no solo, o que reduz a necessidade de utilizar fertilizantes sintéticos. Escolhemos o tremoço porque não é tão explorado na indústria como a soja ou a ervilha, estando o seu consumo ainda muito restringido ao formato tradicional de petisco. Decidimos então desenvolver um pastel onde parte da farinha de trigo da massa é substituída por tremoço. Como esta leguminosa é rica em fibra e proteína, o nosso produto final permite incluir essas alegações nutricionais, resultando numa proposta interessante tanto do ponto de vista ambiental como nutricional.

Rita Ventura

Estudante do Mestrado em Engenharia Alimentar na UCP Porto

Uma mão segurando um pastel meio comido, recheado com verduras e carne, revelando a massa amarela folhada e os ingredientes dispostos em camadas no interior — um lanche inovador inspirado em “Entrevista Tremo: O Pastel Inovador de Tremoço”.

O maior desafio que tivemos foi ao nível do recheio. Tivemos dificuldade em encontrar ingredientes que nos dessem a textura e a cremosidade ideais para preencher o interior do pastel, mas acabámos por optar por uma combinação de tomate seco e espinafres. O tomate seco traz um sabor intenso e diferenciador, enquanto os espinafres contribuem para o equilíbrio do pastel. Curiosamente, a nível da massa, o processo foi relativamente rápido e encontrámos logo nas primeiras tentativas a proporção ideal entre tremoço e farinha de trigo. Ainda tentámos criar uma versão da massa sem farinha de trigo, pensada para pessoas com doença celíaca ou intolerantes ao glúten, mas a massa ficava muito fragmentada. Como essas experiências não tiveram sucesso, decidimos abandonar essa via e regressar à ideia inicial.

Rita Ventura

Estudante do Mestrado em Engenharia Alimentar na UCP Porto

Uma tigela de vidro cheia de feijões amarelo-acastanhados, que lembram o grão-de-bico Casal Vouga, repousa sobre uma superfície metálica, evocando temas relacionados à sustentabilidade agrícola.

Era muito importante para nós valorizar o tremoço, precisamente por estar tão associado à cultura portuguesa e a momentos de convívio, mas também porque nos apercebemos de que grande parte do tremoço que consumimos como petisco é importado, não sendo produzido em Portugal. Nas últimas décadas, houve um enorme decréscimo no cultivo nacional desta leguminosa, muito devido à aposta em culturas mais rentáveis e ao aumento da importação de outras fontes de proteína vegetal, como a soja, que fizeram com que o tremoço perdesse o seu espaço. Com o Tremo, quisemos criar algo que permitisse voltar a valorizar este ingrediente. Acreditamos que, quanto mais variedades e produtos derivados do tremoço chegarem ao mercado, maiores serão os incentivos para os agricultores voltarem a apostar e investir nesta cultura.

Rita Ventura

Estudante do Mestrado em Engenharia Alimentar na UCP Porto

Duas mulheres estão em pé dentro de uma casa, em frente a uma parede branca; uma delas segura um microfone e sorri, enquanto a outra a observa atentamente, talvez discutindo sustentabilidade agrícola ou a produção de leguminosas em Portugal, como o grão-de-bico de Casal Vouga.

Sentimo-nos todos muito contentes e vemos estes reconhecimentos como uma prova clara do nosso esforço e da boa articulação do grupo. Sendo nós uma equipa multidisciplinar, com alunos de três universidades diferentes, a comunicação foi, sem dúvida, uma componente essencial para conseguirmos desenvolver um produto com a qualidade necessária e estes prémios são uma demonstração disso.

Sofia Fang

Estudante de Design de Comunicação na FBAUP

Uma mão usa um garfo para pegar uma das várias empanadas assadas, preparadas com grão-de-bico Casal Vouga, dispostas em um prato branco sobre uma bancada de aço inoxidável, destacando a sustentabilidade agrícola e a produção de leguminosas em Portugal.

Sim, sem dúvida. Atualmente existe um interesse muito maior em produtos de base vegetal no nosso país, principalmente porque as pessoas procuram opções que consigam ser simultaneamente saudáveis, práticas e que mantenham uma ligação à tradição portuguesa. No caso do Tremo, pegámos num ingrediente muito nosso e transformámo-lo num formato inovador e altamente nutritivo. Isso faz toda a diferença para o consumidor de hoje, que gosta de explorar novidades alimentares, mas sem perder a identidade e os sabores que já lhe são familiares. Aliando tudo isto à crescente preocupação com a sustentabilidade e com uma alimentação equilibrada, acreditamos plenamente que existe espaço no mercado para produtos como o nosso.

Bruno Marques

Estudante do Mestrado em Engenharia Alimentar na UCP Porto

Uma pessoa moldando a massa sobre uma bancada de metal, ao lado de uma panela com recheio de grão-de-bico Casal Vouga, um rolo de massa e uma tigela de vidro virada de cabeça para baixo — celebrando a sustentabilidade agrícola em cada mordida caseira.

No futuro, o nosso plano é dedicarmo-nos de forma mais exclusiva à massa do pastel. Depois de realizarmos várias provas sensoriais e participarmos em diversas apresentações e discussões sobre o produto, percebemos que a nossa massa é o verdadeiro fator diferenciador. Por isso, temos como objetivo comercializá-la de forma autónoma, para que possa ser aplicada como base para pizzas, outros pastéis salgados, entre diversas alternativas. Outro aspeto muito importante para nós é o fator de economia circular: a nossa receita integra o tremoço por inteiro, incluindo a casca, o que nos permite utilizar tremoços danificados pela indústria de processamento. Muitas vezes, esses tremoços não podem ser comercializados em salmoura por simples questões visuais. Com a nossa inovação, conseguimos aproveitar esse desperdício, trazendo um valor acrescido para a cadeia produtiva desta leguminosa.

Rita Ventura

Estudante do Mestrado em Engenharia Alimentar na UCP Porto

Entrevista completa em audio:

Artigos recentes

Plano de Proteínas da UE demonstra compromisso europeu para com a proteína vegetal

O novo Plano contém medidas encorajadoras que poderão fortalecer o setor da proteína vegetal…

Inovação alimentar – Entrevista à equipa do Tremo: “Queríamos criar algo que permitisse valorizar novamente o tremoço”

Inovação Alimentar e Valorização do Tremoço Nacional A ProVeg Portugal foi à Universidade…

O Futuro da Proteína Vegetal em Portugal: Resumo após evento de dia 19 de maio

Na agitada manhã de Lisboa, a Casa do Parlamento, mesmo em frente à Assembleia da República…

Fica a par dos últimos artigos da ProVeg…