Na agitada manhã de Lisboa, a Casa do Parlamento, mesmo em frente à Assembleia da República, encheu-se para debater um tema essencial para a agricultura, saúde, economia e para o planeta: o futuro da proteína vegetal em Portugal. O evento, organizado pela ProVeg Portugal, e cofinanciado pelo EIT Food, colocou as leguminosas no centro das atenções, explorando como este “alimento mágico” – que engloba o feijão, o grão, a fava ou a lentilha – pode dar resposta a desafios agronómicos, ambientais e de saúde pública.
A Inspiração que vem da Dinamarca
O pontapé de saída foi dado por Rasmus Horn Langhoff, ex-presidente da Comissão de Clima e Energia do Parlamento Dinamarquês. A Dinamarca tornou-se pioneira ao lançar um plano de ação nacional para alimentos de base vegetal em 2023. Qual foi o segredo deste sucesso? Langhoff explicou que a estratégia passou por usar a “cenoura” em vez do “chicote”: criaram-se fundos robustos para apoiar agricultores e investigadores, construindo pontes entre diferentes setores em vez de alimentar “guerras culturais” sobre o que as pessoas devem comer.
A Mesa de Debate: Da Semente ao Prato
O painel central do evento, moderado por Astrid Sousa Monteiro da ANPOC, reuniu especialistas de diferentes áreas para identificar os bloqueios e as soluções na fileira das leguminosas em Portugal.
- O Poder do Solo e da Inovação: Isabel Duarte, investigadora do INIAV, lembrou que as leguminosas funcionam em simbiose com a natureza, captando o azoto do ar e fertilizando os solos de forma autónoma, o que reduz drasticamente a necessidade de adubos químicos e melhora a resiliência à seca. O grande paradoxo português é que o INIAV já desenvolveu 21 variedades destas plantas perfeitamente adaptadas ao nosso clima, mas a falta de uma cadeia de valor estruturada faz com que muitas destas sementes de excelência acabem por ser vendidas e aproveitadas por países como a França.
- A Falta de Estrutura e Escala: Francisco Caldeira, do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP), foi perentório ao afirmar que o grande desafio é a rentabilidade. Os agricultores precisam de estabilidade e previsibilidade. A solução passa fortemente pela criação de Organizações de Produtores (OPs) robustas, que permitam ganhar escala, partilhar equipamentos dispendiosos e garantir contratos fortes com a indústria e o retalho.
- A Saúde e o “Ambiente Alimentar”: Do lado do consumo, a nutricionista Alexandra Bento alertou para uma realidade dura: os portugueses consomem em média apenas 18 gramas de leguminosas por dia, muito abaixo das quase 80 a 160 gramas recomendadas. O caminho não passa por retirar a carne ou o peixe, mas por recuperar a essência da Dieta Mediterrânica, diversificando a fonte proteica e introduzindo mais feijão e grão nas sopas e pratos principais. Para isso, é urgente intervir nos “ambientes alimentares”, nomeadamente garantindo que as cantinas escolares oferecem estas opções de forma atrativa e deliciosa aos mais novos.
Visão Política: Um Consenso Nacional
O evento contou também com a participação de deputados de quatro forças políticas – Amílcar Almeida (PSD), Pedro do Carmo (PS) Jorge Pinto (Livre) e Inês Sousa Real (PAN).
Houve um consenso surpreendente na sala: apostar na proteína vegetal não é uma “moda urbana”, mas sim uma ferramenta estratégica de soberania alimentar num mundo geopoliticamente instável. Os representantes sublinharam a necessidade de apoiar a produção nacional para reduzir a dependência de importações de países terceiros, proteger os nossos solos contra a desertificação, apoiar economicamente o mundo rural e dinamizar compras públicas que privilegiem as leguminosas.
Conclusão: Todas as Peças do Puzzle
Como sumarizou Susana Barradas, Subdiretora-Geral do GPP, no encerramento da sessão, as evidências nutricionais e ambientais a favor das leguminosas são fortíssimas, mas a decisão do agricultor será sempre uma decisão económica. É preciso viabilidade e lucro para quem trabalha a terra.
O grande saldo desta manhã inspiradora foi claro: Portugal tem todas as peças do puzzle. Temos um clima favorável, tradição gastronómica, ciência de ponta com genéticas adaptadas e uma vontade crescente. O que nos falta é integrar estas peças – juntar a semente, o produtor agrícola, a indústria e o consumidor – criando uma verdadeira fileira nacional, sustentável e lucrativa para todos.
Houve unanimidade quanto à urgência e aos benefícios de uma estratégia nacional para a proteína vegetal, mas ficou claro que o desafio futuro será transformar esse consenso teórico numa verdadeira união na hora de aprovar legislação e pacotes de financiamento.
Vídeo completo do evento:






