A ProVeg Portugal conversou com José Azoia, agricultor e fundador da Egocultum, para entender o presente e o futuro das leguminosas em Portugal. Operando em toda a cadeia de valor, da semente certificada ao embalamento, a Egocultum procura unir o rigor da produção agrícola à exigência industrial, trabalhando de perto com agricultores do centro e sul do país.
Reconhecida pelo grão-de-bico, em particular pela variedade ‘Casal Vouga’, registada no Catálogo Nacional de Variedades em 2020, a Egocultum tem-se diferenciado pelo desenvolvimento desta leguminosa em Portugal, sendo que a experiência de José Azoia no setor vai mais além.
Nesta entrevista, revelou por que razão a produção nacional de leguminosas é ecologicamente e financeiramente estratégica, apesar de limitada por diversos aspetos, como falhas estruturais nos apoios financeiros e desafios agronómicos. Uma conversa essencial sobre eficiência, qualidade industrial e o papel do consumidor na sustentação do setor agrícola português.
Depois de alguma conversa introdutória sobre o clima (que tanto condiciona as ações de qualquer agricultor), começámos com uma questão de base: Afinal, o que faz a Egocultum, quais os seus principais objetivos e qual o seu modo de trabalhar?
A Egocultum funciona de várias formas, estando presente em toda a cadeia de valor das leguminosas. Por um lado, é produtora de grão de bico e chícharo (estando a tentar produzir feijão catarino e pinto), e tem os seus campos de produção, por outro, trabalha na multiplicação de sementes, vendendo sementes a outros agricultores. Fazemos também o acompanhamento técnico no desenvolvimento da cultura e depois compramos a produção. De seguida, limpamos, calibramos, transformamos e entregamos à indústria. Temos trabalhado uma média de 300 hectares, dos quais 50 são de gestão direta e cerca de 250 são de agricultores parceiros. No ano passado, trabalhámos cerca de 500 hectares, e este ano a minha meta é chegar aos 1000 hectares de sementeira. Dividimos sempre a área entre o Ribatejo e o Alentejo para minimizar riscos. Como trabalhamos com campos de multiplicação de sementes, não podemos concentrar o risco num só sítio; se houver uma trovoada, granizo ou um incêndio numa zona, garantimos a semente na outra. É uma forma de não perder a produção de sementes por um evento localizado. Fazemos rotação de três a quatro anos; ou seja, depois de uma leguminosa, só voltamos a repetir essa cultura passados três ou quatro anos, dependendo do tipo de solo e da pressão agrícola. Em relação aos nossos métodos de produção, têm evoluído e este ano estamos a introduzir técnicas de agricultura regenerativa. Contudo, nos campos dos agricultores parceiros não conseguimos aplicar o mesmo tipo de maneio técnico. Mas, na nossa área de gestão, este ano a produção será feita totalmente em sementeira direta. O nosso trabalho foca-se também em minimizar o impacto das infestantes e reduzir o risco financeiro, sendo que através da implementação de técnicas de agricultura regenerativa vamos tentar reduzir os custos de produção. Hoje em dia, a agricultura não pode ser apenas ‘bonita’; tem de dar dinheiro, senão somos apenas jardineiros. Com técnicas regenerativas, conseguimos produzir alimentos com mais densidade nutricional, respeitando o conceito de ‘One Health’. No fundo, fazemos bem ao planeta, aos humanos e à nossa carteira. Só vejo vantagens.
O que o motivou a ser produtor? Porquê o grão-de-bico e como nasceu esta ideia de negócio?
Estudei Engenharia Agronómica na Escola Superior Agrária de Santarém, tendo trabalhado em França e em Angola. Depois, regressei a Portugal e decidi instalar-me como Jovem Agricultor na exploração que o meu pai tinha, na zona de Santarém. Nós sempre fizemos grão-de-bico; o meu pai fazia-o todos os anos, já desde o tempo do meu avô. Escolhíamos o grão à mão e vendia-se para o mercado, mas nunca passava de um ou dois hectares porque era caríssimo limpar o grão manualmente. Mas eu pensei: ‘isto dá-se super bem nestas terras e garante-me uma rotação espantosa’. Com a aprendizagem em França, vi o bem que a rotação faz, não apenas na vertente económica, mas na vertente ecológica e agronómica de melhoramento do solo. Não houve um plano de negócio ou de mercado; as coisas foram acontecendo. Percebi que tínhamos aqui uma variedade que se adaptava e decidi puxar por ela. Fui desbravando caminho e à procura de equipamentos para limpar e selecionar. No início, muitos correram mal: cheguei a ter um armazém cheio de máquinas que não funcionaram por falta de conhecimento técnico. Mas continuei com o grão-de-bico, o feijão e outras culturas. Ao perceber o potencial económico e ecológico, decidi que tinha de transformar isto num produto de supermercado. Como custava muito dinheiro limpar à mão, fui comprando equipamentos, trocando uns por outros, até chegarmos onde estamos hoje. Enquanto Jovem Agricultor, eu, pessoalmente, tive apoio à instalação para o trator e o semeador, o que foi fundamental.
Existem desafios específicos na produção de leguminosas, incluindo económicos e agronómicos? O que tem feito para os ultrapassar?
Cada cultura tem os seus desafios específicos. No feijão e no chícharo, o grande desafio é a colheita. No caso do grão-de-bico, o grande problema são as infestantes. E acrescem a isto, no âmbito da indústria, outras complexidades, nomeadamente a questão do grão partido. Muitas vezes, os agricultores não regulam corretamente as máquinas e o produto chega-nos danificado. É-nos muito difícil encontrar mercados estáveis que valorizem o grão partido, são canais que demoram a construir e solidificar. Mas o tema mais sensível são os apoios do PEPAC. Enquanto agricultores e contribuintes, queremos que o dinheiro público seja bem empregue. Atualmente, as leguminosas para consumo humano são consideradas ‘hortícolas’, mas o sistema permite que se receba apoio mesmo sem uma produção efetiva para venda. Prejudica quem realmente trabalha, quem investe e quem produz alimentos de qualidade para o mercado. O apoio devia estar ligado ao mérito da produção e não apenas à posse da terra. Porque uma pessoa que faz bem e uma pessoa que não faz bem, acaba por receber o mesmo apoio. E não é correto. Até porque eu, quando vendo semente, tenho o objetivo de ter produção de volta. A minha proposta para o PEPAC é simples: premiar quem produz. Quem apenas ocupa o solo recebe o mínimo; quem entrega produção comprovada recebe o prémio máximo. Como contribuintes, pouparíamos dinheiro e, como país, ganharíamos muito mais produção nacional. É fundamental que o Governo lance uma estratégia nacional para as leguminosas, tal como fez para os cereais. São culturas complementares e irmãs. Na prática, a estratégia dos cereais implica fazer rotação, mas não especifica o apoio às leguminosas, especialmente para consumo humano.
Se houvesse maior procura dos consumidores/indústria e mais investimento em leguminosas produzidas em Portugal, como isso beneficiaria a agricultura nacional?
Na indústria, quem manda, no fundo, é o consumidor final. Se o consumidor pedir nacional, a indústria terá produto nacional. Mas, como competimos com o que vem de fora, estamos na luta. Se as pessoas tiverem interesse em leguminosas de qualidade, nacionais, as políticas públicas seguem esse caminho. O maior poder de qualquer representante do setor é ter a opinião pública consigo. É verdade que o consumidor quer comprar barato. No entanto, se conseguirmos comunicar bem a qualidade do produto, em termos de nutrição, saúde e ambiente, existe potencial para que o preço não seja o único critério. E não precisamos que o produto custe mais 40%; basta que seja valorizado em 5% ou 6% para que o impacto positivo no agricultor seja enorme. Nas zonas onde as leguminosas se enquadram, as alternativas de cereais anuais têm cada vez menos rentabilidade, por isso a leguminosa é a opção mais viável. No trigo, há sempre soluções químicas e herbicidas para tudo, e às vezes gasta-se tanto dinheiro que o resultado final é o mesmo. É preciso mudar o chip. E, para mim, como produtor, é uma questão de orgulho. Claro que tenho de pagar as contas e viver do meu trabalho, mas ser recompensado por estar a fazer bem ao solo e a dinamizar a economia local (o senhor do camião, o dos sacos, toda a gente que vive disto) dá uma motivação que não é apenas financeira. É o complemento que nos faz ir mais além.






