Ambiente e Sustentabilidade

Portugal entre os Maiores Consumidores de Peixe: Relatório Destaca que Alternativas de Base Vegetal podem ser Saudáveis e Sustentáveis

A ProVeg examinou 100 alternativas de base vegetal ao peixe em supermercados de 11 países. O relatório destaca como estes análogos, quando bem formulados do ponto de vista nutricional, podem satisfazer as expectativas dos consumidores e reduzir a pressão sobre os ecossistemas marinhos.

Os danos causados pela sobrepesca deixaram os oceanos num estado preocupante. 35,5% das populações de peixes, a nível mundial, estão a ser sobre-explorados.1 Portugal é o país da União Europeia onde se consome mais peixe por habitante. Em 2022, cada português ingeriu, em média, 54,5 kg de pescado, mais do que o dobro da média europeia, que ronda os 23,5 kg.

O consumo de pescado e marisco contribui para aproximadamente 26% da pegada alimentar total a nível nacional e, juntamente com a carne (25%), são os grupos alimentares que mais contribuem para a pegada ecológica em Portugal.3 

O elevado consumo de peixe, em particular, resulta num impacto negativo nos ecossistemas marinhos, especialmente quando associado a métodos de pesca mais agressivos, como a pesca de arrasto de fundo.4

Para salvaguardar não só o ambiente, mas também a segurança alimentar e a saúde, é necessário diversificar as fontes de proteína.

Assim, como forma de responder às preocupações dos consumidores e ir de encontro às oportunidades de mercado, um número crescente de produtos análogos ao peixe, à base de ingredientes vegetais e que imitam a textura e o sabor do peixe, começa a surgir em supermercados. A pergunta que se faz é: Será que satisfazem nutricionalmente o consumidor?

O relatório da ProVeg, denominado “Out of the Net, into the Future” (Fora da Rede, para o Futuro), analisou o perfil nutricional de cada um dos 100 produtos, prestando especial atenção aos nutrientes-chave associados ao consumo de peixe, como proteína, ácidos gordos ómega-3, ferro, iodo e vitamina B12. Os investigadores também analisaram os níveis de gordura saturada e sal – dois nutrientes que devem ser limitados para uma melhor saúde – bem como a fibra, que é encontrada naturalmente apenas em alimentos de origem vegetal.

“Descobrimos que já existem ótimas alternativas de base vegetal ao peixe, nas prateleiras dos supermercados, para satisfazer as exigências das pessoas que gostam de comer peixe”, disse Valentina Gallani, Gestora de Saúde e Nutrição da ProVeg Internacional. “A maioria destas alternativas é pobre em gordura saturada e é uma boa fonte de proteína. Contêm também fibra, que o peixe não contém. Por isso, são uma alternativa viável que é nutritiva e não contribui para a destruição da vida marinha.”

“No entanto, gostaríamos de ver mais inclusão de ómega-3, como óleo de algas, e uma fortificação mais consistente de micronutrientes essenciais, como vitamina B12, ferro e iodo”, acrescentou Valentina.

A situação de Portugal

No relatório, Portugal é um dos 11 países onde foram visitadas lojas para recolher dados sobre os produtos disponíveis.

A nível nacional, foram analisados dez produtos, dentre eles: análogos ao atum em lata, “douradinhos”, filetes panados e aos filetes de salmão. Cinco produtos utilizavam a sistema de rotulagem nutricional simplificado Nutri-Score, sendo dois categorizados como A e três como B, e, portanto, considerados com boa qualidade nutricional e interessantes nutricionalmente.

Em relação ao perfil nutricional, destacam-se os seguintes pontos:

  • Proteína: O conteúdo médio de proteína nas alternativas vegetais ao peixe, em Portugal, é de aproximadamente 11,4 g por 100 g. Cerca de 90% destes produtos cumprem os critérios da União Europeia para serem considerados “fonte de proteína”, o que significa que pelo menos 12% da sua energia provém de proteína.
  • Gorduras Saturadas: O teor médio de gorduras saturadas é de 1,2 g por 100 g, sendo inferior ao limite da União Europeia de 1,5g por 100g, o que permite que estes produtos sejam rotulados como “baixos em gordura saturada”.
  • Ómega-3: A média de ómega-3 é de cerca de 0,9 g por 100 g.
  • Fibra: Os produtos em Portugal contêm, em média, 4,6  g de fibra por 100 g. Cerca de 40% fornecem mais de 3,0 g de fibra por 100 g, sendo qualificados como “fonte de fibra”.
  • Açúcar: A quantidade média de açúcar é de 2,2 g por 100 g, estando abaixo dos 5,0 g por 100 g (“baixo em açúcares”). 80% dos produtos possuem valores de açúcar por 100 g iguais ou inferiores a 1,7 g.
  • Sal: Em média, os produtos contêm 1,3 g de sal por 100 g, sendo um dos pontos de melhoria para esta categoria de produtos.
  • Fortificação com micronutrientes: A fortificação com vitaminas e minerais ainda não é muito comum, sendo apenas 30% destes produtos fortificados com vitamina B12, 20% com ferro e nenhum com iodo.

Opinião pública e recomendações

Um inquérito de 2023 já indicou existir procura por produtos do mar de base vegetal, com 42% dos consumidores europeus a dizerem que os consideram apelativos e 43% a indicarem que considerariam comprá-los.4 A ação governamental para apoiar o ecossistema oceânico também está a crescer, como demonstrou a Cimeira dos Oceanos da ONU em junho.

O novo relatório da ProVeg faz uma série de recomendações a produtores, retalhistas e autoridades sobre como impulsionar o mercado existente e desenvolver alternativas nutritivas. 

No que diz respeito à indústria, o relatório recomenda que estes desenvolvam alternativas de base vegetal com uma composição nutricional mais interessante. 

Aos retalhistas é recomendado que coloquem os produtos de base vegetal em áreas de grande visibilidade ou perto dos seus congéneres de origem animal, nos supermercados, e que os comercializem a preços competitivos. 

O relatório alerta também os governos para que estabeleçam diretrizes nutricionais claras em relação às alternativas ao peixe, como forma de ajudar os consumidores a fazer escolhas informadas e orientar os produtores no desenvolvimento de produtos mais saudáveis.

Aquacultura não é a resposta

Embora algumas pessoas vejam a aquacultura ou a piscicultura como uma forma de reduzir a pressão sobre os oceanos, o relatório deixa claro que estas práticas podem estar associadas a grandes preocupações ambientais, de saúde e éticas. 

As aquaculturas podem prejudicar a biodiversidade local, a qualidade da água e o bem-estar animal, estando associadas à destruição de ecossistemas costeiros críticos. Entre 2000 e 2020, a aquacultura foi responsável por quase 27% da perda global de mangais.5 Os resíduos das aquaculturas – incluindo ração não consumida e fezes de peixe – podem levar à poluição da água e a proliferação de algas nocivas. O uso de antibióticos e químicos nestes sistemas levanta preocupações tanto para a saúde ambiental quanto para o aumento de bactérias resistentes a antimicrobianos, o que pode representar riscos para a saúde humana.6 7 8

De forma geral, uma alimentação rica em vegetais deve privilegiar alimentos integrais, com abundância de frutas, hortícolas, cereais integrais, leguminosas, frutos gordos e sementes. Ainda assim, os produtos vegetais alternativos — desenvolvidos para replicar o sabor e a textura dos alimentos de origem animal — podem ser uma ajuda pontual para quem está a fazer a transição e sente dificuldade em reduzir o consumo de produtos de origem animal, sobretudo por razões de paladar e textura.

Referências

  1. Sharma, R., Barange, M., Agostini, V., Barros, P., Gutierrez, N.L., Vasconcellos, M., Fernandez Reguera, D., Tiffay, C., & Levontin, P., eds. 2025. Review of the state of world marine fishery resources – 2025. FAO Fisheries and Aquaculture Technical Paper, No. 721. Rome. FAO.
  2. European Commission: Directorate-General for Maritime Affairs and Fisheries and EUMOFA, The EU fish market – 2024 edition, Publications Office of the European Union, 2024, https://data.europa.eu/doi/10.2771/9420236
  3. Galli, A., Moreno Pires, S., Iha, K., Abrunhosa Alves, A., Lin, D., Mancini, M. S., & Teles, F. (2020). Sustainable food transition in Portugal: Assessing the Footprint of dietary choices and gaps in national and local food policies. Science of the Total Environment, 749, 141307. https://doi.org/10.1016%2Fj. scitotenv.2020.141307
  4. Evolving appetites: an in-depth look at European attitudes towards plant-based eating. Smart Protein Project, November 2023
  5. Leal, Maricé and Spalding, Mark D (editors) (2024): The State of the World’s Mangroves 2024.
  6. Allsopp, M., P. Johnston & D. Santillo (2008): Challenging the Aquaculture Industry on Sustainability – Greenpeace Research Laboratories Technical Note 01/2008: Available at: http://www. greenpeace.to/publications/Aquaculture_Report_Technical.pdf
  7. Watts, J. E. M., H. J. Schreier, L. Lanska, et al. (2017): The Rising Tide of Antimicrobial Resistance in Aquaculture: Sources, Sinks and Solutions. Marine Drugs 15(6)
  8. Reverter, M., Sarter, S., Caruso, D., Avarre, J., Combe, M., Pepey, E., Pouyaud, L., De Verdal, H., & Gozlan, R. E. (2020). Aquaculture at the crossroads of global warming and antimicrobial resistance. Nature Communications, 11(1), 1-8.

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