Os indicadores climáticos mostram que o aquecimento global atingiu 1,14 °C em média na última década, 1,26 °C em 2022 e 1,45 ± 0,12 °C no período de 12 meses de 2023. 1
Em 2023, cerca de 7,3 mil milhões de pessoas em todo o mundo foram expostas, durante pelo menos 10 dias, a temperaturas influenciadas pelo aquecimento global, sendo que um quarto da população enfrentou níveis perigosos de calor extremo. Com os níveis atuais de aquecimento, as pessoas têm 15 vezes mais probabilidade de morrer devido a fenómenos meteorológicos extremos do que no passado, e 3,3 mil milhões de vidas humanas estão “altamente vulneráveis” às alterações climáticas. 2
Com um aquecimento de 2°C, até 3 mil milhões de pessoas poderão sofrer de escassez crónica de água. Atualmente, 1 em cada 3 pessoas está exposta a stress térmico letal e prevê-se que este número aumente para até 75% até ao final do século. Adicionalmente, mesmo que o aquecimento se mantenha abaixo de 1,6°C, 8% das terras agrícolas atuais tornar-se-ão impróprias para a produção de alimentos. 2
Gases com efeito de estufa
A principal causa das alterações climáticas é o efeito de estufa. Alguns gases na atmosfera da Terra atuam de forma semelhante ao vidro de uma estufa, retendo o calor do sol e impedindo-o de escapar de volta para o espaço, causando aquecimento global.
Muitos destes gases ocorrem naturalmente, mas as atividades humanas estão a aumentar a concentração de alguns deles na atmosfera, em particular 3:
- dióxido de carbono (CO₂)
- metano
- óxido nitroso
- gases fluorados
O CO₂ produzido pelas atividades humanas é o maior contribuinte para o aquecimento global. Em 2023, a sua concentração na atmosfera tinha aumentado 51% em relação ao nível pré-industrial (antes de 1750). 3
Outros gases de efeito estufa também são emitidos pelas atividades humanas em menores quantidades, como o metano, que, apesar de estar presente em concentrações menores, é muito mais poderoso que o CO₂, ainda que possua uma vida útil atmosférica mais curta.
O óxido nitroso, tal como o CO₂, é um gás de longa duração que se acumula na atmosfera durante décadas a séculos.
Poluentes não relacionados com o efeito de estufa, incluindo aerossóis, têm efeitos de aquecimento e arrefecimento diferentes e estão também associados a outros problemas, como a má qualidade do ar.
As causas naturais, como mudanças na radiação solar ou atividade vulcânica, terão contribuído com menos de cerca de 0,1°C para o aquecimento total da Terra entre 1850 e 2019.
Causas do aumento das emissões
- A queima de carvão, petróleo e gás, que produz dióxido de carbono e óxido nitroso.
- O abate de florestas (desflorestação). As árvores ajudam a regular o clima ao absorver CO₂ da atmosfera. Quando são abatidas, esse efeito benéfico perde-se e o carbono armazenado nas árvores é libertado para a atmosfera, aumentando o efeito de estufa.
- O aumento da criação de animais para consumo, principalmente em contexto de libertação de grandes quantidades de metano durante a digestão.
- Fertilizantes que contêm azoto, que emitem óxido nitroso.
- Gases fluorados, que são emitidos por equipamentos e produtos que utilizam estes gases.
Como o sistema alimentar afeta o aquecimento global?
O sistema alimentar afeta o aquecimento global principalmente através da agricultura extrativa, da pecuária e da destruição de ecossistemas (como florestas) para expansão de terras agrícolas.
O setor agrícola é uma fonte de GEE, incluindo de metano e óxido nitroso, que são gases de aquecimento potentes:2
- Emissões de metano da pecuária: Devido à fermentação entérica e aos efluentes, é responsável por 35% a 40% das emissões antropogénicas anuais de metano (em Portugal, este valor ultrapassa os 70%). O metano tem um potencial de aquecimento global 80 vezes superior ao CO₂, em média e ao longo de duas décadas.
- Emissões relacionadas com fertilizantes: As emissões provenientes do fabrico, transporte e aplicação de fertilizantes sintéticos libertam o potente óxido nitroso. Atualmente, estas emissões relacionadas com fertilizantes provavelmente ultrapassam as emissões da indústria da aviação comercial e estão projetadas para aumentar.
- Mobilização do solo: A agricultura industrial envolve lavoura profunda, o que esgota e oxida o solo, transformando-o numa fonte persistente de emissão de CO₂.
A necessidade de expandir a produção alimentar, que foi um motor da Revolução Verde há mais de 50 anos, continua a levar à destruição de habitats.
- Causador da perda de florestas tropicais: 83% da perda de carbono nas florestas tropicais é impulsionada pela agricultura.
- Pecuária e desflorestação: A pecuária e o cultivo de alimentos para ração animal são as causas predominantes da desflorestação global. Em 2022, a taxa de desflorestação global foi equivalente a 11 campos de futebol por minuto.
- Uso de solo: Atualmente, 77% do solo agrícola está dedicado à pecuária (seja através de pastoreio ou cultivo de ração animal).
- Uso de água: A agricultura é responsável por 70% das captações globais de água doce.
- Poluição da água: A agricultura causa 78% da eutrofização global dos oceanos e da água doce. A poluição dos rios por nutrientes e agentes patogénicos tem uma forte ligação à pecuária, sendo que o escoamento de pesticidas e fertilizantes também degrada a qualidade da água.
Soluções
Pequenas mudanças no dia a dia podem gerar um grande impacto no clima; veja quatro formas eficazes de reduzir as emissões de carbono:4
1) Mudar para viagens terrestres sustentáveis
Abandonar carros movidos a gasolina ou gasóleo, optando por transporte público ou, se possível, bicicleta e caminhada. Não usar um veículo movido a combustível pode ser 78 vezes mais benéfico, em termos de emissões, do que fazer compostagem. Mas não precisa de ser tudo ou nada; optar por partilhar a viagem de carro com outras pessoas ou trocar para um carro híbrido ou elétrico podem ser passos importantes.
2) Opte por alternativas ao transporte aéreo
Sempre que possível, procura substituir voos por videoconferências, viagens de comboio ou até mesmo carro, preferencialmente elétrico ou híbrido. Embora viagens aéreas não sejam um fator significativo para a maior parte do mundo – 89% da população mundial nunca andou de avião -, é uma das atividades mais intensivas em carbono.
3) Instalar energia solar residencial e aumentar a eficiência energética da casa
Investir em painéis solares no telhado e melhorar a eficiência energética da casa — como aprimorar o isolamento, instalar bombas de calor ou mudar para uma casa menor — pode reduzir significativamente as emissões. Embora trocar lâmpadas ou desligar aparelhos tenha um efeito muito reduzido, melhorias estruturais na eficiência da casa e adoção de energia limpa geram reduções muito mais expressivas. Devido ao alto custo inicial, essas ações geralmente são mais viáveis com programas governamentais de apoio.
4) Ter uma alimentação rica em vegetais e desperdiçar menos alimentos
Optar por deliciosas opções vegetais e reduzir o consumo de carne e laticínios tem um impacto enorme e subestimado no clima. Embora optar por alimentos biológicos e de produção regenerativa, comprar localmente e reduzir alimentos processados signifiquem benefícios ambientais, essas mudanças são pequenas comparadas à redução do consumo de proteína de origem animal, que permite poupar até 1 tonelada de CO2 anualmente, ou seja, cerca de um sexto das emissões totais de um cidadão médio global. Começa com receitas que te são familiares e inspiradas na gastronomia portuguesa, e/ou introduz uma receita cuja fonte principal de proteína é de origem vegetal uma vez por semana. Para te ajudar na jornada, podes fazer download da aplicação para smartphone Veggie Challenge, um desafio de 30 dias que te ajuda a comer mais vegetais. Adicionalmente, um menor desperdício de alimentos também é um fator importante a ter em conta, pois gera 6% das emissões globais de gases de efeito estufa e desperdiça recursos como água, energia e solo, explorados para alimentos que nunca são consumidos.
Reduzir emissões de carbono é necessário e todos nós, tanto a nível individual como coletivo, temos essa responsabilidade. No entanto, reforça-se que o impacto climático também está ligado ao uso do solo, da água e de outros recursos naturais, e que pequenas mudanças no dia a dia podem gerar grandes efeitos.
O sistema alimentar é particularmente estratégico, pois pequenas mudanças na alimentação não só reduzem emissões de gases de efeito estufa, como também diminuem a pressão sobre o uso do solo e da água, mostrando que escolhas alimentares conscientes podem colmatar várias questões ambientais de forma integrada.
Referências
- (Forster, P. M., Smith, C. J., Walsh, T., Lamb, W. F., Lamboll, R., Hauser, M., Ribes, A., Rosen, D., Gillett, N., Palmer, M. D., Rogelj, J., von Schuckmann, K., Seneviratne, S. I., Trewin, B., Zhang, X., Allen, M., Andrew, R., Birt, A., Borger, A., … Zhai, P. (2023). Indicators of Global Climate Change 2022: Annual update of large-scale indicators of the state of the climate system and human influence. Earth System Science Data, 15(6), 2295–2327. https://doi.org/10.5194/essd-15-2295-2023)
- (Fletcher, C., Ripple, W. J., Newsome, T., Barnard, P., Beamer, K., Behl, A., Bowen, J., Cooney, M., Crist, E., Field, C., Hiser, K., Karl, D. M., King, D. A., Mann, M. E., McGregor, D. P., Mora, C., Oreskes, N., & Wilson, M. (2024). Earth at risk: An urgent call to end the age of destruction and forge a just and sustainable future. PNAS Nexus, 3(4), pgae106. https://doi.org/10.1093/pnasnexus/pgae106)
- Comissão Europeia. Causes of climate change. Acedido em setembro de 2025: https://climate.ec.europa.eu/climate-change/causes-climate-change_en)
- Hernandez, M. (2025). The most impactful things you can do for the climate aren’t what you’ve been told. World Resources Institute. Acedido em setembro de 2025: https://www.wri.org/insights/climate-impact-behavior-shifts






