Ambiente e Sustentabilidade

“Consumo e Produção Nacional Sustentáveis e Alimentação Coletiva – Importância das Leguminosas” – Reflexões após evento de 13 de novembro

No passado dia 13 de novembro, a Escola Superior de Educação de Lisboa (ESELx), em Lisboa, acolheu um evento focado no futuro da alimentação em Portugal: “Consumo e Produção Nacional Sustentáveis e Alimentação Coletiva – Importância das Leguminosas”. O encontro reuniu produtores, retalhistas, indústria, municípios, empresas de alimentação coletiva, decisores, entre outros, para debater a importância das leguminosas no sistema alimentar. De acordo com o feedback recolhido, 100% dos participantes aconselham o evento aos seus pares, evidenciando o seu valor e relevância. Um total de 94 pessoas inscreveu-se no evento, das quais se destacam 32% de representantes de empresas alimentares, 21% de institutos de educação superior e 14% de câmaras municipais.

Estratégias Práticas

O evento começou com um workshop focado em destacar soluções práticas para aumentar o consumo de leguminosas em contexto profissional. As propostas abrangeram diversas áreas, desde a necessidade de valorizar o produto nacional e de melhorar a acessibilidade através de embalagens maiores para famílias até à aposta na formação de cozinheiros. Pediu-se maior flexibilização na contratação pública, para inclusão de mais leguminosas nas refeições coletivas, e propôs-se uma abordagem mais prática, como o envolvimento das crianças na culinária através de workshops e degustações.

Desafios da Produção Nacional e Compras Públicas

A primeira mesa de debate sobre a produção nacional e as compras públicas revelou que, apesar da vontade de muitos e das vantagens para a saúde do solo e proteção dos ecossistemas, a produção e o escoamento de leguminosas em Portugal é ainda pouco estruturado e enfrenta dificuldades de competitividade com as importações. A discussão sublinhou a importância de integrar critérios de sustentabilidade nas compras públicas, considerando a pegada de carbono, a proteção da biodiversidade e a saúde dos solos, como fatores centrais na definição de critérios.

Foram, assim, identificadas limitações dos modelos atuais de adjudicação, bem como a necessidade de adoptar estratégias para valorizar a origem nacional, a sazonalidade e as práticas sustentáveis. A pequena escala de muitos produtores, a dificuldade em responder a volumes exigidos, bem como a burocracia e a complexidade dos concursos públicos, surgiram como barreiras. A isto acrescentam-se desafios de logística e distribuição, frequentemente fragmentadas, e a falta de articulação eficaz entre produtores e entidades compradoras.

Astride Sousa Monteiro, da ANPOC, reforçou que é essencial uma produção mais estruturada e associada (em organizações de produtores, por exemplo) para ganhar escala e tornar a produção rentável. Paula Mota Rodrigues, da Câmara Municipal de Torres Vedras, partilhou a estratégia de modelo de compras do munícipio, que pontua a proximidade do produto, revelando existir potencial para criar um sublote específico para leguminosas, caso exista oferta.

Catarina Espanhol, da Eurest Portugal, revelou existirem dificuldades em obter leguminosas nacionais e sugeriu procurar inspiração em modelos de sucesso lá fora, referindo ainda a capacidade de influência do caderno de encargos.

Conceição Santos, da omissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo (CCDR LVT), revelou que existem oportunidades de apoio nacionais e europeus, mas ainda persistem barreiras culturais que dificultam a associação entre produtores, algo que facilitaria questões de burocracia e poderia trazer benefícios financeiros e reforçar o setor agrícola.

Importância da Arquitetura de Escolha

Na mesa de debate sobre arquitetura de escolha, destacou-se a importância de estruturar o contexto – físico ou digital – de modo a orientar suavemente as pessoas para decisões mais benéficas, sem retirar a liberdade de escolha. Um dos instrumentos centrais deste processo é o nudging, pequenos “empurrões” subtis que influenciam o comportamento de forma previsível. 

Exemplos simples mostram o impacto destas estratégias: apresentar uma descrição detalhada e apelativa como “Feijoada à Portuguesa com feijão branco, couve-lombarda, cenoura e cogumelos frescos” é mais eficaz do que a formulação genérica “Feijoada com feijão branco e legumes”. Do mesmo modo, colocar pratos mais saudáveis e sustentáveis no início do buffet ou junto ao checkout aumenta a probabilidade de serem escolhidos. Também o tamanho dos pratos influencia o consumo, já que as pessoas tendem a encher o recipiente que lhes é dado. A apresentação de informação sobre as pegadas ambientais das refeições – ainda que não sobre “pegada saudável” – tem igualmente mostrado levar a escolhas menos poluentes.

Heitor Oliveira, do Politécnico de Lisboa (IPL), sublinhou a importância de diversificar a alimentação e reforçar o consumo de vegetais, salientando que o aspeto visual dos pratos é decisivo. Destacou ainda o esforço do IPL em aproximar pratos tradicionais portugueses de versões mais equilibradas, incluindo a mudança de nomes dos pratos em geral para dar maior protagonismo aos vegetais.

Ana Laranjeiro, do ITAU, apresentou iniciativas da instituição para reduzir a pegada ambiental, aumentando a oferta de refeições de base vegetal. Já Sofia Bértolo, da Câmara Municipal de Leiria, referiu o desafio de comunicar estas mudanças aos encarregados de educação, recorrendo a várias estratégias, como convites para visitas aos refeitórios, de forma a promover confiança e transparência.

Todos os intervenientes da mesa destacaram a colaboração com a ProVeg Portugal através do programa Prato Sustentável.

Valorização dos Produtos à Base de Leguminosas

Na apresentação de Carla Santos, da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa, Portugal, o foco esteve na valorização de leguminosas através da formulação de novos produtos alimentares. Explorou-se os benefícios nutricionais, ambientais e socioeconómicos do aumento do consumo de leguminosas como parte dos sistemas alimentares sustentáveis, abordando especificamente os desafios relacionados com a Dieta Planetária.

A apresentação destacou a investigação sobre o perfil nutricional, a variação genética e o impacto ambiental das leguminosas, discutindo questões como a acessibilidade alimentar e as prioridades do consumidor, onde o preço e a nutrição são fatores importantes.

Finalmente, apresentaram-se dados específicos que compararam diferentes produtos de leguminosas, como alimentos enriquecidos com grão-de-bico e tremoço, ilustrando o seu teor melhorado de proteína e fibra e o impacto positivo em indicadores de saúde, como o controlo da glicose.

Da Indústria ao Consumidor: Qualidade e Preço

O diálogo entre indústria, retalho e produção revelou o desafio central: a produção nacional é, de momento, mais cara que a importada. Para que o retalho e a indústria apostem mais na produção nacional, a escala é essencial. Mas o setor das leguminosas em Portugal enfrenta desafios estruturais, marcados pela pouca atratividade, baixa mecanização e crescente competitividade do exterior. 

A indústria alimentar exige fornecimentos regulares, volumes padronizados e qualidade consistente – requisitos que nem sempre são alcançáveis com a atual estrutura produtiva. Também as grandes superfícies procuram estabilidade e rastreabilidade, mas encontram dificuldades em estabelecer parcerias duradouras. Contratos de fornecimento de médio e longo prazo seriam fundamentais para fortalecer a cadeia de valor das leguminosas, a nível nacional.

José Azoia, da Egocultum, destacou o conhecimento técnico existente, mas apontou o custo elevado dos equipamentos para a colheita das leguminosas como um obstáculo. Evidenciando ainda como as vantagens ambientais do cultivo das leguminosas pode estar associado a ganhos económicos, considerando o enriquecimento de matéria orgânica no solo e a associação das leguminosas com a agricultura regenerativa. 

Mónica Sobreiro, do Clube de Produtores do Continente, e Elisabete Galiano, da Sumol+Compal, concordaram que, embora as leguminosas estejam a tornar-se uma tendência (com um crescimento tímido no consumo), os consumidores portugueses são tradicionalmente resistentes à mudança e podem não estar dispostos a pagar mais pela sustentabilidade. Por isso, a qualidade (como o tamanho e integridade do grão) e o storytelling, como estratégia de marketing, são cruciais para o sucesso comercial.

Conclusão

Em síntese, o encontro evidenciou que o futuro das leguminosas em Portugal depende de uma ação integrada e coerente ao longo de toda a cadeia de valor. 

Ficou claro que existe vontade, conhecimento técnico e exemplos inspiradores – tanto nacionais como internacionais -, mas persistem desafios estruturais que exigem respostas coordenadas: desde a organização da produção e a articulação logística até à revisão dos modelos de contratação pública e à criação de relações de confiança entre produtores, indústria, retalho e alimentação coletiva. 

Ao mesmo tempo, a valorização do produto nacional, o uso inteligente da arquitetura de escolha e o reforço da literacia alimentar mostram-se ferramentas decisivas para aproximar consumidores e profissionais de opções mais sustentáveis. O evento deixou, assim, uma mensagem inequívoca: com planeamento, cooperação e investimento na transformação dos sistemas alimentares, as leguminosas podem tornar-se um pilar essencial de um modelo alimentar mais resiliente, saudável e sustentável para Portugal.

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