À medida que as preferências dos consumidores continuam a mudar, as marcas enfrentam pressão para melhorar a nutrição, reduzir aditivos e controlar os custos dos insumos. Estas exigências colocam os ingredientes e a estratégia de formulação no centro do desenvolvimento de produtos.
Em 2026 e nos anos seguintes, as empresas de sucesso serão provavelmente aquelas capazes de identificar ingredientes de alto desempenho, garantir um fornecimento fiável e escalar as suas formulações de forma eficaz.
Três áreas de inovação em ingredientes estão a moldar, em particular, a próxima fase do desenvolvimento alimentar: novos insumos para melhores produtos, um aprovisionamento mais inteligente de matérias-primas essenciais e novos papéis no fornecimento para sistemas de fermentação e de cultivo.
1. Novos ingredientes para produtos de próxima geração
Muitos dos ingredientes mais recentes são concebidos para melhorar o sabor e a nutrição, simplificar os rótulos e apoiar formulações mais sustentáveis. No que toca ao sabor e à textura, vários ingredientes microbianos e de origem vegetal estão a ajudar as empresas a melhorar a estrutura, a sensação na boca e a libertação de sabores.
- O micélio, a estrutura semelhante a raízes dos fungos, pode ser cultivado em formas densas e fibrosas, adequadas para análogos à carne, inclusive a produtos de charcutaria. Produtores como a Meati (EUA) e a Libre Foods (Espanha) utilizam-no para conferir textura sem necessidade de aglutinantes complexos ou extrusoras.
- O Koji (Aspergillus oryzae) é uma cultura de fermentação tradicionalmente utilizada em alimentos japoneses como o miso e o molho de soja, estando agora a ser aplicado em carnes de base vegetal pelo seu sabor salgado e efeitos amaciadores; a Prime Roots (EUA), por exemplo, utiliza o koji para mimetizar carnes curadas.
- Já as fibras de valorização circular (upcycled) – produzidas através da secagem e moagem de subprodutos do processamento de aveia, cevada ou citrinos – são utilizadas para melhorar a retenção de água e a textura. 1
Estes ingredientes reaproveitam material que, de outra forma, seria desperdiçado, promovem o teor de fibra e reduzem a dependência de agentes de textura adicionados.
No campo da nutrição e funcionalidade, além do teor proteico, as marcas procuram ingredientes que ofereçam perfis de aminoácidos melhorados, micronutrientes ou melhor digestibilidade.
- As favas estão a ganhar tração pelo seu elevado teor de proteína, baixo potencial alergénico e métodos de processamento melhorados que ajudam a reduzir o amargor. 2
- As microalgas, como a clorela e a espirulina, são ricas em proteínas, ferro, vitaminas do complexo B e ómega-3, com empresas como a Brevel a produzir proteína de algas de sabor neutro.
- A lentilha-d’água (lemna) é uma planta aquática de crescimento rápido, rica em proteínas e minerais, que pode ser cultivada em pequenos sistemas hídricos, exigindo menos terra e fertilizantes do que as culturas convencionais.3
Quanto aos materiais emergentes, a proteína do ar é produzida alimentando micróbios com dióxido de carbono, nitrogénio e hidrogénio para criar uma biomassa densa em nutrientes, uma abordagem que a Solar Foods está a comercializar utilizando eletricidade renovável. As algas marinhas estão também a ser desenvolvidas como fonte de proteína, agente gelificante e ingrediente mineral, crescendo rapidamente sem necessidade de água doce ou terra arável. 4 Finalmente, as proteínas unicelulares provenientes de fermentação estão a suscitar novo interesse, com a EniferBio (Finlândia) a comercializar a Pekilo – uma proteína fúngica desenvolvida originalmente nos anos 70 – utilizando subprodutos da indústria florestal como matéria-prima.
2. Estratégias de aprovisionamento para insumos de alta procura
O acesso a matérias-primas essenciais está a tornar-se uma preocupação estratégica para as marcas de produtos de base vegetal.
A volatilidade nas culturas de mercadorias, a pressão sobre o solo e a crescente procura por transparência na cadeia de abastecimento estão a impulsionar uma mudança na estratégia de aprovisionamento. A dependência de um conjunto restrito de culturas globais, particularmente a soja e a ervilha amarela, cria exposição a riscos geopolíticos e de monocultura. Para resolver isto, os produtores estão a virar-se para culturas alternativas com vantagens regionais e coprodutos já presentes nas cadeias existentes.
Opções promissoras incluem as favas, o tremoço e o cânhamo – culturas ricas em proteínas e adequadas a climas temperados – e a proteína de batata, um subproduto da extração de amido que oferece benefícios de solubilidade e emulsificação. Estas opções reduzem a dependência de importações e abrem oportunidades para o processamento regional e cadeias de transporte mais curtas.
Os processos de fabrico alimentar geram grandes volumes de material que são muitas vezes descartados; cada vez mais, este material é transformado em ingredientes de valorização circular (upcycled) que entregam benefícios funcionais e reduzem o desperdício.
Fontes comuns incluem a fibra de aveia e cevada proveniente de bebidas vegetais e da produção de cerveja, a casca de citrinos e a polpa de maçã, ou os bagaços de sementes oleaginosas. Estes materiais podem ser processados em farinhas e concentrados que melhoram a textura e apoiam alegações de sustentabilidade. Empresas como a Planetarians e a Upcycled Foods estão a comercializar estes insumos, e um número crescente de marcas está a adotar o selo Upcycled Certified™. 5
Paralelamente, à medida que cresce o escrutínio sobre a pegada ambiental, algumas marcas estão a focar-se em como o ingrediente é produzido, estabelecendo parcerias com fornecedores que operam sistemas de baixo impacto ou regenerativos, priorizando a biodiversidade e a saúde do solo.
3. Insumos para fermentação de precisão e sistemas cultivados
A fermentação de precisão e a produção de carne cultivada dependem de insumos definidos, como matérias-primas, meios de cultura e materiais estruturais, que devem cumprir normas de segurança alimentar e funcionalidade. Na fermentação de precisão, micróbios como leveduras ou fungos são programados para produzir compostos específicos, necessitando de uma fonte estável de carbono. Embora este venha tipicamente do milho ou da beterraba, a volatilidade de preços está a impulsionar o interesse em matérias-primas alternativas, como fluxos secundários da produção de alimentos, valorização de resíduos agrícolas ou mesmo carbono não alimentar (CO₂ capturado ou metanol).
A produção de carne cultivada depende de meios de cultura – uma mistura equilibrada de nutrientes e fatores de crescimento que permitem às células animais formar tecido. Historicamente dispendiosos por virem da cadeia farmacêutica, a redução do seu custo é um dos principais desafios técnicos. A Qkine (Reino Unido) lançou um portfólio de fatores de crescimento de grau alimentar e sem origem animal, enquanto a ORF Genetics (Islândia) produz o MesoKine, uma plataforma de expressão proteica baseada em cevada. As gorduras também desempenham um papel crítico na replicação do sabor e comportamento térmico dos produtos animais; empresas como a Yali Bio e a Nourish Ingredients estão a criar lípidos de design através de micróbios engenheirados. Os suportes (scaffolds), materiais que dão estrutura às células, utilizam atualmente fibras vegetais ou micélio para permitir a formação de tecidos complexos.
À medida que estas tecnologias escalam, surgem oportunidades para fornecedores B2B em nichos como estirpes microbianas personalizadas, suportes funcionais e serviços de fabrico por contrato. No entanto, o progresso é limitado pela infraestrutura de produção ainda escassa fora da América do Norte e partes da Ásia, restrições de propriedade intelectual e barreiras regulamentares. Estes insumos de montante (upstream) serão determinantes para a viabilidade comercial destes sistemas.
Conclusão
A estratégia de obtenção de ingredientes é agora um fator decisivo na forma como as empresas alimentares competem. Para empresas e investidores, quatro áreas merecem atenção prioritária: a funcionalidade (melhoria de sabor e textura com menos aditivos), a nutrição (qualidade proteica e saúde metabólica), o aprovisionamento (cadeias fiáveis e regenerativas) e a compatibilidade de plataforma (insumos otimizados para fermentação e sistemas cultivados). Compreender estas tendências é fundamental para navegar num sistema alimentar cada vez mais competitivo, regulado e limitado em recursos.
Adaptado de artigo de Simon Middleton, Senior Writer da ProVeg International
Referências
- Upcycled Foods Inc. (2025). Ingredient portfolio. Available at: https://www.upcycledfoods.com/
- Future Market Insights. Fava Bean Protein Market Size, Share, Growth. Future Market Insights, 2024. Available at: https://www.futuremarketinsights.com/reports/fava-bean-protein-market
- Green Queen (2023). Meet the startups working with the climate-positive alt-protein superfood that grows everywhere. Available at: https://www.greenqueen.com.hk/duckweed-lemna-startups-alt-protein-superfood-climate-change-future-food-water-lentils/
- Seaweed for Europe (2023). Hidden champion of the ocean. Available at: https://www.seaweedeurope.com/wp-content/uploads/2020/10/Seaweed_for_Europe-Hidden_Champion_of_the_ocean-Report.pdf
- Upcycled Food Association (2024). Upcycled Certified™ Program Overview. Available at: https://www.upcycledfood.org/upcycled-certification






